[RESUMO] Pressionado por modelo de contenção de despesas que ajudou a criar, governo Lula adota uma estratégia nova na seara econômica brasileira: o populismo técnico, distante tanto da gastança dos primeiros governos petistas nos anos 2000 quanto do fiscalismo-frio de Temer-Guedes, sustenta autor. Por meio de medidas como reajuste do salário mínimo e isenção do Imposto de Renda, Planalto tenta produzir alívio social pontual, de impacto imediato na base eleitoral, mas sem assustar o mercado.
Há algo de fascinante —e arriscado— na estratégia econômica do governo Lula (PT) em 2025: a tentativa meticulosa de produzir alívio social cirúrgico, com impacto imediato na base eleitoral, sem acionar os alarmes do mercado. É o populismo em versão de alta precisão.
Uma equação instável que mistura salário mínimo reajustado, crédito consignado digital e isenção de Imposto de Renda —tudo às vésperas de um ano eleitoral decisivo, com a inflação em marcha lenta e os juros em marcha forçada.
O pano de fundo é conhecido: a política monetária segue dura, guiada por um Banco Central comprometido em combater a inflação, blindar a moeda e manter o Brasil minimamente atrativo diante da fuga global de capitais. Juros altos, crescimento baixo, consumo contido. Um cenário tecnicamente coerente —e socialmente impopular.
Diante disso, o governo opera em três frentes simultâneas: renda, crédito e tributo. Ou, em outras palavras, bolso, fôlego e alívio. A pergunta que paira sobre Brasília, o mercado e o eleitorado é simples e incômoda: será possível agradar a todos sem quebrar a conta? Ou estamos apenas adiando um novo desequilíbrio?
O primeiro movimento do governo Lula veio com forte apelo simbólico: o reajuste do salário mínimo acima da inflação, em 2,5%, elevando o piso nacional para R$ 1.518.
A medida, que afeta diretamente aposentados, pensionistas, trabalhadores formais de baixa renda e milhões de microempreendedores, foi apresentada como uma correção moral, uma revalorização do trabalho diante da corrosão inflacionária.
A matemática orçamentária, contudo, não conhece moral: ela conhece impacto. Segundo cálculos da Instituição Fiscal Independente (IFI), cada real a mais no piso nacional representa cerca de R$ 370 milhões a mais em gastos públicos por ano. A razão é simples: o salário mínimo indexa uma ampla gama de benefícios sociais obrigatórios.
Eis a armadilha: o mesmo reajuste que injeta renda no consumo de base pressiona os cofres públicos, encarece contratações e acende alertas no mercado. O dilema é clássico e recorrente. O salário mínimo como instrumento de política social entra em choque com a lógica fiscal do equilíbrio intertemporal.
A narrativa oficial fala em justiça social. A leitura técnica fala em risco de expansão de gastos permanentes. A verdade, como sempre, está no meio —e no tempo. O ganho real de hoje pode virar inflação amanhã. E o alívio imediato pode custar caro em termos de credibilidade e estabilidade no médio prazo.
A segunda medida do pacote governamental foi a liberação de uma nova modalidade de crédito consignado para trabalhadores do setor privado, agora diretamente vinculada à Carteira de Trabalho Digital (CTPS). Trata-se, tecnicamente, de uma inovação regulatória: o trabalhador pode contratar empréstimos com desconto automático em folha, sem depender de convênios específicos entre empresas e instituições financeiras.
O objetivo é explícito: ampliar o acesso ao crédito barato, com juros entre 3% e 4% ao mês, bem abaixo das taxas de cartão, cheque especial ou crediário. Em tese, um refinanciamento racional da dívida da população de baixa renda.
A adesão prática, porém, expôs um descompasso. Nas primeiras semanas, foram registradas mais de 64,7 milhões de simulações no aplicativo da CTPS Digital, mas apenas 48 mil contratos foram efetivamente fechados. A disparidade revela uma realidade incômoda: o endividamento das famílias brasileiras não é apenas uma questão de acesso ao crédito, mas de capacidade de arcar com ele.
O modelo, embora promissor, levanta dúvidas. A principal delas: o que acontece se o trabalhador mudar de emprego? A reaverbação, mecanismo que transfere automaticamente o desconto para a nova empresa, ainda não foi testada em larga escala. E a inadimplência, se vier, poderá recair sobre as instituições financeiras, sobre o Judiciário ou sobre o Tesouro, dependendo da arquitetura legal do sistema.
Além disso, há um risco macroeconômico: se o crédito expandir de forma desordenada, pode estimular o consumo num ambiente já pressionado por preços. Nesse caso, a consequência é conhecida. O Banco Central responderá com mais juros, neutralizando o estímulo —e talvez até invertendo seus efeitos.
A terceira iniciativa, e talvez a mais ambiciosa, é a proposta de isentar do Imposto de Renda todos os brasileiros com renda mensal de até R$ 5.000. A medida toca no nervo da regressividade tributária brasileira e busca, com inegável acerto político, aliviar a carga sobre a classe média assalariada, que há anos vem sendo comprimida entre inflação, endividamento e crescimento pífio.
A ideia é simples: quem ganha menos, paga menos. E quem ganha muito —especialmente por meio de lucros, dividendos ou rendas no exterior— passa a contribuir mais. O projeto, em tramitação no Congresso, prevê a criação de um “imposto mínimo” para quem tem renda acima de R$ 600 mil por ano. Se o total pago ao longo do ano for inferior a um patamar preestabelecido, a diferença será cobrada.
A lógica é correta. Mas a execução é arriscada.
Primeiro, porque a elite econômica brasileira tem histórico de resistência criativa à tributação. O planejamento tributário agressivo é uma indústria no país. Segundo, porque o Fisco, embora eficiente, não está aparelhado para fiscalizar com profundidade as movimentações dos super-ricos, especialmente no exterior.
Há, ainda, o efeito colateral de ampliar significativamente a base de isentos, o que pode comprometer a arrecadação futura e pressionar ainda mais os tributos indiretos —como o ICMS, que incide sobre o consumo e penaliza justamente os mais pobres. Paradoxo em sua forma mais pura: o alívio na renda vira custo no consumo.
O pano de fundo dessas três medidas é uma tentativa quase cirúrgica de operar dentro de um sistema de contenção que o próprio governo ajudou a criar. O novo arcabouço fiscal —com meta de resultado primário, bandas de variação e mecanismos de correção— não permite grandes saltos. Mas também não proíbe movimentos táticos.
É exatamente aí que Lula e sua equipe operam: na margem de manobra. Cada benefício anunciado é calibrado para não disparar os sensores de descontrole. É um populismo com régua. Uma bondade contida. Um assistencialismo que sabe fazer conta.
Há, todavia, um problema: o mercado também sabe fazer conta. E sabe distinguir alívio pontual de tendência estrutural. Se a percepção for de que o governo está, aos poucos, cavando brechas para gastar mais —e de que o Congresso está disposto a flexibilizar o arcabouço—, a reação virá. Via dólar. Via juros futuros. Via perda de confiança.
O governo sabe disso. E, por isso mesmo, vende suas medidas com um discurso duplo. Para o povo, diz que está cuidando de quem mais precisa; para o mercado, afirma que está respeitando os limites. É uma retórica sofisticada, mas que só se sustenta se os números fecharem.
O que se vê, portanto, é a emergência de um novo modelo: o populismo técnico. Não é a gastança explícita dos anos 2000, nem o fiscalismo frio da era Temer-Guedes. É um meio-termo que tenta fazer política social com responsabilidade contábil. Um equilíbrio fino entre o desejo de agradar e o medo de romper.
No entanto, a natureza do populismo, mesmo o de alta precisão, é expansiva. O reajuste do mínimo de hoje abre espaço para demandas maiores amanhã. O crédito de hoje pode virar inadimplência amanhã. A isenção de hoje cria pressão para novos cortes amanhã. E o amanhã, como se sabe, é o dia seguinte das urnas.
Resta saber se o país conseguirá manter esse jogo por muito tempo. Ou se, como tantas vezes na história recente, o equilíbrio de hoje não passa de um prenúncio de desequilíbrio futuro.