O Brasil pode se beneficiar da guerra comercial instalada pelo tarifaço do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
Analistas ouvidos pela Folha afirmam que, apesar do potencial baque no comércio global, o país pode se aproveitar do rearranjo dos fluxos comerciais e expandir o volume de transações às economias mais afetadas, como União Europeia, China, Japão e México.
“É de se esperar uma diminuição do comércio de bens e serviços dos EUA com outros países do mundo e, acima de tudo, que os países mais atingidos pelas tarifas busquem outros parceiros para realizar transações. Nesse contexto, podemos ver um redirecionamento dos fluxos de comércio das economias desenvolvidas e da China para países emergentes, como o Brasil”, afirma Bruno Shahini, especialista em investimentos da Nomad.
Foi o que aconteceu entre 2018 e 2020, quando os Estados Unidos, liderados por Trump pela primeira vez, impuseram tarifas de importação sobre produtos de grandes parceiros comerciais e, separadamente, sobre uma gama de produtos chineses. Em resposta, seis economias –China, Canadá, União Europeia, Índia, México e Turquia– retaliaram.
Em relatório atualizado em janeiro deste ano, o Departamento de Agricultura do governo dos EUA (USDA, na sigla em inglês) calculou o impacto da guerra de tarifas para o setor. Entre 2018 e 2019, a retaliação comercial causou perdas de mais de US$ 27 bilhões nas exportações agrícolas. O maior prejuízo veio da queda das importações chinesas, e só a soja respondeu por 71% da redução.
O grande vencedor da guerra, segundo a USDA, foi o Brasil, que absorveu “a maior parte do comércio perdido pelos Estados Unidos no ramo da soja”. Só em 2018, a China diminuiu as importações da commodity dos Estados Unidos em pouco menos de US$ 7 bilhões e, em contrapartida, aumentou em US$ 8 bilhões o consumo de produtos agrícolas brasileiros, “quase inteiramente em soja”, cita o documento.
“Mesmo após a trégua com o ‘acordo Fase Um’ em 2020, a China manteve o Brasil como principal fornecedor agrícola, reforçando os laços”, diz Shahini. Hoje, cerca de 70% das importações chinesas de soja já têm origem brasileira.
No tarifaço anunciado na quarta-feira, Trump impôs tarifas de 10% a todas as importações dos Estados Unidos e outras adicionais, de magnitude diferente para cada país. Aos chineses, foram impostas taxas de 34%, além das de 20% aplicadas anteriormente; ao Brasil, uma de 10%, o que muitos estrategistas viram com alívio.
Analistas do Itaú consideram que o espaço para aumentar exportações para a China é um pouco mais limitado devido à já predominante presença de produtos brasileiros na pauta asiática. “Retaliações chinesas aos EUA devem mirar outros setores, como minerais críticos, onde o Brasil tem pouca participação”, dizem as analistas Julia Gottlieb e Julia Marasca, economistas do Itaú Unibanco, e Laura Pitta, economista de China do Itaú BBA.
Mas ainda há janelas em vista. Com a União Europeia, por exemplo, o potencial acordo com o Mercosul pode acelerar a ratificação para diversificar fornecedores, beneficiando o Brasil como fonte de bens agrícolas e matérias-primas. Como informou a Folha, o ministro francês das Finanças, Éric Lombard, chegou até a defender que as discussões sobre o acordo deveriam ser “apressadas” para minimizar os efeitos do tarifaço, em um raro aceno da França à conclusão do tratado.
O embaixador da França no Brasil, Emmanuel Lenain, disse, por outro lado, que esse cenário não vai diminuir as resistências dos franceses às cláusulas do tratado de livre-comércio.
As especialistas do Itaú ainda enxergam caminhos com Canadá e México. “Eles podem buscar o Brasil para diversificar exportações, aproveitando complementaridades: eles exportam manufaturados e energia, enquanto o Brasil exporta commodities (como carne, grãos e minério)”, afirmam.
Antes do novo tarifaço de Trump ser aplicado, o Brasil começou a pressionar o México para permitir exportações de carne suína de mais frigoríficos, além das sete instalações no estado de Santa Catarina que já têm permissão para a operação.
O próprio ministro da Agricultura, Carlos Fávaro, chegou a endossar a visão de que o Brasil poderá se beneficiar do tarifaço em falas nesta quinta-feira. Segundo ele, as ações podem atrapalhar os mercados internacionais, “mas o Brasil tem competência e certamente vai saber usufruir disso e fazer disso uma grande oportunidade”.
O tarifaço, no entanto, pode atingir em cheio as economias emergentes –grupo no qual o Brasil se enquadra. Um relatório da agência de classificação de risco Moody’s avalia que esses mercados estão mais expostos à remodelação dos fluxos globais de capital, cadeias de abastecimento, comércio e geopolítica.
Mercados menores, como México, Tailândia, Malásia e Vietnã, são especialmente “mais vulneráveis porque dependem mais do comércio e do investimento estrangeiro para crescer”.
“Quando a aversão ao risco aumenta, os emergentes se tornam particularmente vulneráveis às saídas de capital”, diz o relatório. Mas grandes mercados, como Brasil e Índia, “estão melhor posicionados para atrair e reter capital global” porque “possuem economias grandes e voltadas para o mercado interno, mercados de capitais domésticos profundos, credibilidade política moderada e reservas cambiais significativas”.
São atributos que, segundo a Moody’s, podem servir de colchões de amortecimento para pressões externas e, por consequência, dar confiança aos investidores.
Essa visão já tem se manifestado no mercado financeiro. O dólar acumula queda de quase 8% em relação ao real desde o início do ano, enfraquecido pelo vaivém da política tarifária de Trump e pela possibilidade, cada vez mais precificada, de uma recessão nos Estados Unidos.
Só nesta quinta, a moeda chegou a ser cotada a R$ 5,592 –patamar que não alcançava desde outubro do ano passado. “Essa apreciação do real se deve à expectativa de fortalecimento da balança comercial brasileira com outros países e da aproximação do Brasil com Sudeste Asiático, Japão e Europa”, diz um relatório da MB Associados.
Há ainda um movimento de “rotação” para fora dos Estados Unidos, no qual o objetivo é reduzir a exposição aos ativos de lá e, assim, diminuir os riscos.
Com a percepção de que o Brasil foi menos afetado pelas tarifas, somada aos preços baixos dos ativos domésticos por causa da forte desvalorização do final do ano passado, o fluxo de investimentos tem sido direcionado para cá. Só neste ano, o Ibovespa acumula alta de quase 9%.