As tarifas ameaçadas pelo presidente Donald Trump sobre países que compram petróleo da Venezuela são mais um exemplo de como suas medidas comerciais podem atingir a China mais duramente, mesmo quando a China não é nomeada.
Trump anunciou as “tarifas secundárias” de 25% na semana passada, retratando-as como direcionadas ao regime autoritário de Nicolás Maduro na Venezuela e à gangue venezuelana Tren de Aragua. As tarifas relacionadas à Venezuela ainda podem ser impostas, além das taxas muito altas que Trump anunciou na quarta-feira (2).
Além de ser o maior comprador de petróleo da Venezuela, a China, que já sofreu a imposição de duras dos EUA, também é o país menos capaz de parar de comprar petróleo venezuelano.
A Venezuela deve cerca de US$ 10 bilhões aos bancos estatais da China, de acordo com a AidData, um instituto de pesquisa da Universidade William and Mary, em Williamsburg, na Virgínia, que compila informações sobre financiamento de desenvolvimento chinês.
Os bancos chineses precisam que seus empréstimos à Venezuela sejam pagos. Eles já enfrentam grandes perdas em empréstimos imobiliários no país. Na segunda-feira (31), o Ministério das Finanças da China disse que venderia cerca de US$ 70 bilhões em títulos para fortalecer os quatro maiores bancos comerciais do país.
Mas, após mais de uma década de má gestão econômica, a Venezuela quase não tem exportações legais, exceto petróleo, para arrecadar o dinheiro necessário para continuar pagando suas dívidas à China.
O petróleo bruto da Venezuela é fortemente contaminado com enxofre. As gigantes energéticas controladas pelo Estado chinês estão entre as poucas empresas que investiram em refinarias capazes de processar petróleo com alto teor de enxofre.
A Venezuela também é um dos aliados diplomáticos mais próximos de Pequim, tornando ainda mais difícil para a China parar de comprar seu petróleo. No verão passado, quando Maduro iniciou outro período no poder, em uma eleição amplamente descrita como repleta de fraudes, ele recebeu uma nota de congratulações do líder chinês Xi Jinping.
Um porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, Guo Jiakun, criticou as tarifas. “Os EUA há muito abusam de sanções unilaterais ilegais e de ‘jurisdição de longo alcance’, e interferem grosseiramente nos assuntos internos de outros países”, disse ele.
Não está claro quando as tarifas poderiam começar. Na semana passada, Trump disse que entrariam em vigor em 2 de abril. Mas o secretário de Estado Marco Rubio ainda deve determinar quais países compraram petróleo venezuelano antes que as tarifas entrem em vigor, de acordo com o governo Trump.
A China comprou uma média de 268 mil barris de petróleo por dia no ano passado da Venezuela, que teve exportações totais de 662 mil barris por dia, de acordo com a Kpler, uma empresa especializada em rastreamento de remessas de petróleo. Os EUA compraram 234 mil barris por dia, tornando-se o segundo maior comprador depois da China. Separadamente, Trump está eliminando gradualmente as compras americanas nos próximos dois meses.
A China representa 62% das exportações da Venezuela para países que não os EUA, com Índia e Espanha também comprando quantidades consideráveis. O volume de petróleo bruto venezuelano indo para qualquer um desses países caiu nas últimas semanas, de acordo com a Kpler, no que pode ser um sinal de cautela em relação a enfrentar tarifas americanas adicionais.